O CAPOEIRISTA E A DISCIPLINA

 

Para solicitarmos atitudes disciplinares em capoeiristas é necessário antes de tudo possuí-la. Mas possuir a que me refiro não de forma artificial, mas como essencial para que primeiro sejamos educados. Se não educarmos a nós mesmos como é que iremos educar alguém?

Podemos até disfarçar o tempo todo. Podemos enganar uma pessoa, que somos educados, mas enganar a todo o mundo e o tempo todo inteiro que somos portadores dessas qualidades que muitos supõem possuí-las, não.

A disciplina é uma atitude íntima, uma virtude da alma e não comportamento artificial.

Não adianta tentar nos comportar igual a fulano só porque achamos bonito, se nosso exterior não condiz com o interior. Passaremos à vida toda negando para nós mesmos que não somos o que pensamos ser. Mesmo porque disciplinamo-nos não é observar padrões de comportamentos alheios e segui-los, mas nos tornar exemplos por nossas atitudes. Existe um dos mandamentos de mestre Bimba deixou para a capoeira que se fosse seguido pela a maior parte dos professores e mestres da atualidade, garanto que a turma mais nova não iria ter muita dificuldade de assimilá-lo, pois se trata de uma das necessidades básicas para todos nós que pretendemos auxiliar no processo disciplinar durante os treinos?

“Respeitar o mestre e guardar disciplina durante os treinos” é um dos mandamentos que mestre Bimba deixou. Atualmente, será que os alunos respeitam mestres e guardam disciplina durante os treinos?

Analisando essa problemática em que quase todos os estados do Brasil, percebi que varia muito de estado para estado, de grupo para grupo. Uns respeitam seu mestre por temer ser expulso por ele; outro teme ser pego na roda como dizem; existem também os bajuladores que respeitam o seu mestre apenas para ganhar crédito.

Mas, por incrível que pareça existem aqueles que realmente respeitam o mestre, não está na qualidade de nem um dos citados e nem tão pouco por julgar-se o bom, e sim por ter caráter de berço.

Analisemos esses alunos que contam mil e uma vantagens, aqueles que, se levam uma rasteira já fecham as mãos, fazem uma careta e partem para a violência. Cuidemos para que esses jogadores de capoeira respeitem seu mestre vão respeitar quem?

Ora! Sendo a disciplina um dever e sendo o dever uma obrigação moral, a disciplina torna-se, então, a mola-mestra para que possamos melhorar e em seguida educarmos nossos alunos. Sem falar que aprenderemos a nos comportar adequadamente nas várias situações a que nos submetermos ou que submetam-nos.

Se encararmos a disciplina como se fosse um dever a ser praticado por todos nós e uma obrigação moral a ser cumprida, estaremos sem perceber, oferecendo campo para que nossos alunos e capoeiristas em geral se convençam de que tanto nós como os treinos somos coisas sérias que devem ser tratadas seriamente.

Ofereçamos essa contribuição como se fosse uma semeadura responsável e educativa que não perderemos por esperar uma colheita de capoeiristas sérios para um futuro bem próximo. Existem outros métodos, eu sei, no qual o professor ou mestre tem que tentar ser um exemplo, pois ele só pode modificar ou exigir até onde ele mesmo possa servir de exemplo.

Como posso pedir a capoeiristas que estão participando de um evento para jogarem direito com os alunos que estão se batizando, se eu mesmo sou indisciplinado, atropelo o primeiro que entra pra jogar comigo? Que sentido me faz pedir que capoeiristas tenham mais calma nas rodas de capoeira, se eu sou o primeiro a incentivar a desarmonia?

Passaremos quase sempre grandes vexames quando exigimos comportamento adequado de nossos alunos só por estarmos na presença de diversas pessoas seja em batizados ou em apresentações. Como podemos exigir disciplina, humildade assim tão de repente de pessoas que não foram educadas para isso?

É como diz o ditado:

“Entrará por um ouvido e sairá por outro”, porque a educação do ser humano não acontece como passe de mágica. Não adiantará pedir, porque quando muitos mal-educados se empolgam, assumem posições as que estão acostumados há fazer toda semana nas rodas de capoeira.

Estudando os métodos disciplinares de M. Bimba através de seus discípulos como Suassuna, Itapuã, Deputado, Onça e vários outros capoeiristas percebi que os métodos usados por M. Bimba eram excelentes enquanto, o que mais contribuiu, na minha concepção, foi sua própria disciplina, isso tanto na prática como na teoria.

Hoje é diferente. Existem algumas academias nas quais o professor chama atenção dos alunos e eles não o atendem. Para mim isso não resolve o problema da indisciplina.

Existem professores que tentam fazer o chamado jogo duro só para se chatearem. Dá um martelo no aluno, este lhe responde com um galopante na boca. Não é que o professor não possa ser atingido, mas deve ser respeitado, porque senão as chamadas hierarquias ficarão apenas como enfeites na capoeira. É preciso ter cuidado com os falsos capoeiristas que estão aparecendo a cada dia, pois se não houver uma conscientização nos mais novos, ao invés da capoeira servir de terapia saudável para o corpo e a mente tornar-se-á um esporte agressivo e causador de vários problemas de ordem física e psicológica. Que não aconteça isso dentro dos verdadeiros fundamentos e práticas da capoeira.

Existem capoeiristas pensando que no jogo da capoeira pode tudo ou vale tudo, como se não houvesse regras. Creio que não seja assim, pois o jogo verdadeiramente bom de capoeira não é aquele que tem ferocidades ou que um dos dois sai vencedor, mas aquele em que os dois capoeiristas encontram harmonia na sintonia maliciosa feita para realizar o que pode no momento que devem.

A capoeira antigamente era cheia de ataques, mas sem os ataques adequados.

Pensemos calmamente em tudo isso e estaremos, sem sombra de dúvida, dando uma chance para nós mesmos cultivando a disciplina na capoeira.

 

O CAPOEIRISTA E O ORGULHO

 

Nossas inquietações de querermos capoeiristicamente ser o que os outros são ou de pretendermos ser atração para o ideal capoeirístico, não são nada mais do que manifestações sutis do nosso orgulho.

Essa febre de desejarmos ser o que os outros s são ou acompanhar o seu “sucesso” é que nos faz mal, porque nunca existirá um capoeirista igual ao outro. Semelhante sim, igual não. E até mesmo nomearmos esse ou aquele de melhor, mas sim, os mais dedicados; até porque ninguém sabe da sua essência.

O orgulho, esta alergia que todos nós temos, embora em graus diferentes é como uma chaga dilaceradora que impede e desarmoniza qualquer capoeirista que deseja evoluir.

Muitas vezes desejamos coordenar ou dirigir uma coisa apenas por orgulho. Exigimos várias vezes trabalho e de oferecer a nossa contribuição. Comportamo-nos quase sempre como se fossemos crianças que empinam o nariz quando querem uma coisa.

Nosso nível de conscientização ás vezes é tão atrasado que temos a mania de dizer que os outros capoeiristas se encontram numa má condição existencial. Segundo outros é obra do destino.

Ora, se somos os arquitetos da maioria dos acontecimentos de nossas vidas, de quem devemos reclamar? Acho que apenas de nós mesmos, pois cada capoeirista colhe o que planta e está bem hoje de acordo como tenha procedido ontem.

Muitos capoeiristas passam por diversos problemas com alunos devassos, outros que, segundo ouvimos, chegam a decepcionar profundamente. Mas se observarmos, não foram esses alunos que chegaram a os decepcionar, foram eles mesmos que causaram essa decepção, criando uma realidade baseada em suas preferências e objetivos que nem sempre satisfazer os outros.

Chegamos, então, com essa atitude a maltratar a nós mesmos por desejarmos que nossos alunos e outros capoeiristas até mesmo outras pessoas do nosso convívio, sejam como nós gostaríamos que eles fossem. Inúmeras vezes não percebemos, mas fazemos violações dos direitos de liberdade que é natural todos possuírem.

Achamos, orgulhosamente, que nossos alunos são propriedade nossa e da capoeira. Não atentamos para o fato de que eles, como todo cidadão, possuem o direito de transitar onde quer que desejem desde que não violem o direito dos outros, ou melhor, nossos alunos têm todo direito, se não estão se sentindo bem na nossa companhia capoeiristica, de participarem de um outro grupo.

Que acontece então, quando queremos prender qualquer pessoa na nossa companhia?

Construímos castelos no ar e quando tropeçamos, a primeira coisa que dizemos é que os outros nos abandonaram, nos traíram, mas não imaginamos que havíamos traçado um roteiro para nossos alunos ou amigos, no qual o mais provável é que os mesmos nunca tenham se identificado, ficaram conosco apenas por ficar.

Amigavelmente falando, se não frearmos o orgulho desmedido que hoje habita em nossas almas é porta desagradável que inevitavelmente se abrirá no amanhã, fazendo com que derrapemos desastrosamente no abismo da decepção e sofrimentos que, se cuidados antes, seriam evitados. Muitos capoeiristas mais novos dizem:

- Como eu gostaria de me movimentar como um Espirro Mirim da vida.

Outros afirmam: como o mestre Suassuna, Joel, Moraes... Harmonizam a roda na hora que cantam.

No entanto, não perguntam o que essas pessoas fizeram para alcançar tais habilidades.

Assim como o orgulho é o maior entrave no processo evolutivo de qualquer capoeirista, a humildade é uma das maiores alavancas.

Nossa alma é como se fosse uma ferida, o orgulho é semelhante a uma doença contagiosa, a humildade é o antídoto. Que fazemos então? Colocamos mais doença (orgulho) ou mais remédio (humildade)?

Diz-se que a boca fala do que esta cheio o coração, mas nem sempre é assim. Existe, nós, os capoeiristas sabemos muita hipocrisia no meio capoeiristico. Pessoas que falam palavras belíssimas sobre humildade comentam nos eventos só por estarem na presença de um público considerável, palavras e normas que não fazem parte da sua realidade ou do seu dia-a-dia, entram em contradição nas primeiras atitudes que observamos.

Isso porque não tentam aceitar seus defeitos ou apresentar-se como realmente são. Negam, portanto, seu próprio nível de consciência e sem perceberem, cavam sua própria cova colocando espinhos no seu caminhar capoeiristico.

Desta forma, muitos capoeiristas não percebem, mas por serem desarmonizados, desarmonizam os outros. Por estarem constantemente em luta com seus conflitos íntimos, perturbam outros capoeiristas e por deixarem que sentimentos de orgulho tenham predominância sobre os de humildade.

Seu contato no meio capoeiristico pode incentivar os mais novos a tomarem atitudes semelhantes por que assim como existem nos mais novos capoeiristas a propensão para camaradagem, existe também a tendência para a deslealdade, agressividade, desprezo a outros capoeiristas e um capoeirista iniciante que apenas tenha tendência para inúmeras coisas desagradáveis, vê um capoeirista veterano praticando atitudes de baixo valor educativo, pode por sua vez sintonizar-se com o mesmo, simplesmente por causa da compatibilidade de tendências.

É por isso camarada do ideal capoeiristico, que não devemos tomar atitudes agressivas, desleais, mesquinhas nas rodas de capoeira e onde quer que estejamos.

Porque as rodas ou eventos de capoeira são lugares nos quais muitos iniciantes vão observar, aprender ou procurar um capoeirista em quem possa se espelhar e estando nesse momento receptivo a cada um de nossos movimentos ou palavras, que influencia enormemente no seu aprendizado capoeiristico e desenvolvimento como ser humano, passam a se moldar conforme o que tenham visto. Por que uma atitude de camaradagem ou deslealdade que tivermos criarão reflexões por sua vez, podem transformar-se em roteiro para quem os observa.

É valido nos orgulhar, quando somos solicitados a participar das festas da capoeira? Orgulharmo-nos de quê? Por que cantamos muito? Porque jogamos um pouco melhor do que uma meia dúzia de capoeiristas? Por sermos conhecidos em outros países? Tenho ligeira impressão que não devemos nos orgulhar de nem um desses itens, mas apenas agradecer a oportunidade de participarmos dos diversos eventos e rodas de capoeira, não para exercitar nossas vaidades, que por sua vez são alimentadas pelo orgulho, mas para aprendermos e ensinar e só assim crescermos juntos.

Está sendo por sua causa de orgulho desvairados que excelentes capoeiristas estão se apagando. Mas será pela humildade, perseverança no bem de servir conscienciosamente ao ideal capoeiristico que brilharão.

 

EXPLICAÇÕES NECESSÁRIAS

 

Para conduzirmos uma explicação por vias mais compreensíveis é necessário usar palavras ou comparações adequadas. Caso contrário escrevemos muitas coisas com palavras bonitas e complicadas, sem, contudo tornar inteligível.

Não pretendemos deixar nesse pequeno escrito particularização ou rótulo dessas ou daquela religião. Meu objetivo principal é tentar elucidar algumas questões embaraçosas, que envolve a capoeira e alguns religiosos fanáticos.

Assim como não podemos definir a psicologia por apenas um psicólogo, não é prudente dizer que o que vemos tal capoeirista fazer ou falar, seja uma verdade capoeiristica. Ou daquele capoeirista contenha a originalidade dos fundamentos da capoeira.

Muitas pessoas por verem uma pessoa tocar um berimbau e fazer algumas acrobacias e movimentos, quase sempre desajeitados, pensam que ali está à capoeira propriamente dita. Não pensem que seja assim.

A capoeira não é apenas um toque de berimbaus, acrobacias, saltos, jogo de Angola ou regional; não é apenas as músicas belíssimas que os capoeiristas criam; não esta apenas em uma academia ou da posse de um só mestre; nem mesmo de um único grupo; é o conjunto de todas essas coisas e outras sabedorias que muitos de nós desconhecemos.

Pessoas cujo costume é ter preconceito com culturas que não conhecem e com certas atitudes ou hábitos de outras pessoas,acham que pelo fato de usarmos o tambor, o berimbau, o caxixi, o padeiro e catarmos músicas que não estão de acordo com suas preferências, fazem parte de crendices ou mistismos.

Esses quatro subtemas do capitulo “Capoeira e suas Crenças” são apenas uma contribuição cultural educativa que visa informar não somente o meio capoeiristico a respeito de muitas controvérsias suscitadas, mas também para deixar explícito para alguns religiosos e muitas pessoas confundem a capoeira com tudo quanto suas imaginações preconcebidas cultivam; que a capoeira é um esporte, uma luta marcial dançada e não um folclore portador de misticismo.

Escrevi esse quatro subtemas, porque cada um tem sua finalidade esclarecedora.

No primeiro subtema, “A questão da capoeira e o culto aos Orixás.” Analisaremos por quais motivos os mais velhos capoeiristas rendiam culto aos Orixás. Veremos que essa forma de louvar não é negativa, desde que faça o bem.

É um culto que chamava de politeísta ou culto a vários deuses. Não é novo e nem foram só os povos africanos praticavam e praticam. Muitas raças e em todos os tempos cultivam vários deuses. Esse culto politeísta é tão velho quanto o gênero humano.

No segundo, “Análise precipitada” dedica-se ao esclarecimento sobre muitas idéias preconcebidas tanto com a capoeira, como também com as manifestações africanas.

Veremos nesse subtema que não devemos julgar nem o que conhecemos muito menos o que não conhecemos simplesmente por não termos o “olho” da verdade.

No terceiro, chamado “Um destino lógico” existem fundamentos tão lógicos, através de diálogos e perguntas a que fui submetido, que quem tiver juízo e olhos para entender, perceberá a serenidade do assunto. Apoiei-me em bases mais confiáveis e precisas como a Filosofia, a Psicologia transpessoal, nas modernas doutrinas do psiquismo e, sobretudo na ciência.

Não para mostrar para os céticos o que eles sempre vão negar na filosofia da capoeira ou para discutir com quem se compraz em permanecer na ignorância sobre a vida e sua elasticidade evolutiva, pretendo oferecer possibilidade com racionalidade a todo aquele que desejar mergulhar nos vastos enigmas que existem na filosofia capoeirista.

Em “Evoluído com o tempo” o último subtema, objetivo conduzir de forma amigável e lúcida o raciocínio de todo aquele que deseja fazer observações mais demoradas e sérias em torno desse assunto tão construtivo e empolgante, mas de profunda delicadeza e bom senso na hora de abordarmos. 

 

CONSCIÊNCIA CAPOEIRISTICA

 

O processo de conscientização de uma criatura, pode levar a vida inteira e as vezes não acontece nessa existência, ficando portanto, para uma outra oportunidade no palco da vida humana. Ao passo que em almas mais avançadas, com mais bagagens na área intelectual e moral, fruto de experiências anteriores, esse processo acontece ainda cedo, na juventude. Não por privilégios, mas porque havia nessas criaturas, todos os ingredientes necessários ao despertar da consciência.

No admirável pensamento de Platão consta: “Aprender é recordar.” Com essa idéia, aquele sábio filósofo apregoava não somente os conhecimentos inatos, mas o que a alma teria aprendido numa outra existência.

Conta-se que Deus certa vez, reuniu todos os anjos, arcanjos e querubins, para lhes dizer onde colocaria sua lei. Um dos presentes disse:

- Senhor, porque tu não a colocas nas profundezas do mar?

- Deus responde:

- Não!!! Porque lá ira um homem chamado Jack Costeau fazer estudos investigar e a encontrará.

Outro falou:

- Porque o senhor não a coloca na lua, Onde ela ficará bem sossegada?

- Não meu filho!!! Chegará um momento no qual os homens visitarão a lua.

Chegou então um santo cearense, que estava estagiando para ser anjo e disse:

- Senhor, porque não coloca na consciência de cada um de nós?

Essa história ilustra bem o que quero dizer. Pois é na nossa consciência que estão escritas as leis de Deus. É nela que o homem vai ao longo de sua evolução, despertando o bem fruto de uma herança Divina, e porque não dizer também, imprimindo, através do uso do livre-arbítrio, ações negativas, que geram condicionamentos e estes, por sua vez, incita o homem a praticar o que denominamos o mal. 

Em uns, esse despertar se encontra em estado embrionário, mas potencial; em outros, num estado mais avançado. À medida que  a consciência vai se alargando, isto é, à medida que a pessoa vai adquirindo o conhecimento de si, também vai se conscientizando e, por força de um processo natural, dá-se o começo da realização e da plenitude espiritual.

O lado denominado mal, que está fazendo parte da vida das criaturas em dado momento de sua evolução, não lhe fora dado por Deus,pois se existisse um erro ou acidente de percurso em sua obra, ele não seria Deus e, logo, não seria perfeito. Mas o homem, que ao se utilizar do livre-arbítrio, como disse a pouco, é que vai imperceptivelmente armazenando na sua mente idéias, condicionamentos e energias perniciosas, que o influenciam aqui e ali, a ter pensamentos e atitudes de caráter maldoso, digamos assim. Chamamos isso de lado mau do homem.

Talvez o leitor esteja se questionando o porquê de todas essas informações. Mas eu pergunto: como subiremos ao mais alto degrau de uma escada se não passarmos pelos primeiros? É necessário, pois um entendimento prévio, antes que adentremos naquilo que buscamos entender.

Como disse, anteriormente, o processo de conscientização das pessoas leva tempo. Na capoeira, acontece algo muito semelhante.

Não é pelo fato de alguém ser portador de conhecimentos fora do mundo da capoeira que chegará a ela se tornará um bom capoeirista. A capoeira tem seu próprio mundo, valores e filosofia, que engloba um vasto mundo se culturas e espiritualidades, de modo que sua funcionalidade, sobretudo prática, requer tempo, entendimento e que o capoeirista se entregue de corpo e alma, afim de que possa sentir a “alma da coisa.”

Até que o capoeirista tenha conhecimento da capoeira como um conjunto e se conscientize dos seus mais intricados valores, mas sobre tudo que queira vivenciá-los, terá que aprender a jogar muito, mas não somente o jogo em si mesmo, porquanto, estes muitos sabem, mas me refiro ao jogo da vida; precisamos aprender a jogar com as situações complicadas, a esquivar e a negaciar das emboscadas que aqueles que não são muito afeitos a nós, nos criam: sermos surdos quando as más línguas balbuciam comentários menos dignos a nosso respeito; sermos mudos quando estivermos em vias de machucar ou menosprezar alguém verbalmente...

Tudo isso, são coisas que levamos tempo para nos conscientizar. Às vezes estamos a 10 anos na capoeira, mas quem sabe com mais 10, a capoeira consiga entrar em nós.

Como meio e arma de educação, invistamos no processo de conscientização por aquilo que ajudamos a desenvolver, por aqueles que se sentem cativados por nós.

A capoeira tem muitos potenciais e o ser humano ainda mais, por isso é que essa intrínseca ligação que existe entre nós e a capoeira devem ser fortalecidas dentro de parâmetros saudáveis e conscienciosos. Fazendo isso, quem sabe os maiores beneficiados não sejamos nós mesmos?

Conscientizar os capoeiristas dos valores, dos fundamentos, das regras e da filosofia é trabalho inadiável. Entretanto, para quem almeja tal feito, só existe um caminho: conscientizar a si mesmo. Não adianta tentarmos encontrar nos outros, algo que nos agrade, para que possa dar razão as atitudes do mesmo, Pois na maioria das vezes é isso que nossa consciência alega para nós, quando não aprovamos alguém. Mas se ainda não nos conscientizarmos, como vamos poder aprovar ou desaprovar o próximo.   

 

A MODÉSTIA É NATURAL

 

A naturalidade nas nossas atitudes credencia-nos a descobrimos uma maneira para que despertemos em nós mesmos aquilo que realmente somos.

Aqueles que de maneira natural se apresentam com as características da verdadeira modéstia, da humanidade, da paciência, talvez levem em consideração que o sejam. Pois, dentre todas as virtudes, a humildade e a verdadeira modéstia não realçam a si mesmas. Os humildes e os modestos têm consciência de que essas virtudes, que a divindade, plantou em seus corações, afim de que os mesmos, como qualquer outro, possam desenvolvê-las, não foi para outra coisa senão para poderem auxiliar seus irmãos de jornada. Muitos capoeiristas fazem um esforço descomunal para que os outros percebam que eles são humildes, bons, modestos e verdadeiros. Contudo ao perceberem que dentro deles não existe essas qualidades, alguns ficam frustrados. Tudo porque passam displicentemente a acreditar  que são o que idealizaram para a sua aparência. Mas se esquecem que não somos o que pensamos ser,muito menos o que os outros dizem a nosso respeito, mas somos o que em realidade palpita dentro de nossas almas; somos o que sentimos.

Alguns, a seu turno, esforçam-se tanto para evitar que os outros percebam suas façanhas, mas não conseguem driblar as vistas felinas e afiadas na arte de perceberem as espertezas e macetes que esse tipo de capoeirista promove.

Vale a pena relatar um caso por mim vivido a alguns anos com o mestre João Pequeno.

Certa vez, me encontrava numa cidade brasileira, onde na oportunidade, tive o privilégio de conviver por dois dias na presença do Mestre João Pequeno. Fiz as aulas desse velho capoeirista e conversei muitas coisas com ele. Para mim, aquele fora um dos melhores momentos da minha carreira capoeiristica, pois não se tratava ali de um capoeirista que poderíamos ver com facilidade e, muito menos, de pode estar ao seu lado lhe sentindo a alma, cheia de sabedoria; se tratava de um grande capoeirista.

Num dado momento do evento, todos se reuniram após a aula do mestre para lhe fazer questionamentos; saber dele qual seu ponto de vista a respeito de muitas coisas da capoeira. Varias perguntas foram endereçadas para que o mestre João Peequeno pudesse desatar o nó.

Algo bastante significativo acontecera diante das minhas vistas atenciosas a tudo que estava acontecendo.

Um rapaz, de uns 25 anos aproximadamente, perguntou ao mestre:

---- Mestre, hoje o senhor é o aluno mais velho do Mestre Pastinha. Como o senhor se senti? O senhor não tem orgulho desse privilégio, não?

O mestre na quietude que lhe é própria, respondeu:

---- Não! Eu só estou tentando dar continuidade ao trabalho de mestre Pastinha, porque ele me deu seu trabalho para eu tomar conta.

Nesse momento, eu percebi uma certa intranqüilidade no semblante do interlocutor. Talvez, ele desejasse uma resposta “ao tom” de suas expectativas, ou queria ver qual seria o comportamento do mestre.

Entretanto, mestre João pequeno deixou ali uma lição de humildade e modéstia muito profunda, quando disse: ”só estou tentando dar continuidade ao trabalho de mestre Pastinha.” Esse comportamento fora tão natural que nem de leve mestre João pequeno fez esforço para externá-lo.

Todavia, quanto de nós como já fora dito anteriormente, não fazemos esforços grandiosos, gastando energia e tempo, para podermos ouvir de alguém que agimos bem ou que somos “isso ou aquilo”? Até nos esquecemos que entre todas as coisas que pudemos exigir dos outros, como sermos amados, entendidos, ditos como simples e modesto – são as únicas que não devem ser forçadas.

Já imaginou o quanto é desagradável que digamos que ele ou ela é modesto ou humilde? Perde todo encanto. É semelhante a dizermos que amamos alguém porque esse alguém quer que digamos. Aceitemos a nós mesmos como somos. Descubramos o quanto somos importantes para nós mesmos. Imaginemos que dentro todas as criaturas que Deus criou, não existe nenhuma igual. Portanto, somos únicos!!! Se não somos o que almejamos hoje, no amanhã, com certeza, se nos esforçarmos agora, alcançaremos.

A modéstia é irmã da humildade. Por isso, quanto mais natural melhor. Não queiramos assumir uma posição que não está a nossa altura em amadurecimento. Devemos fazer como diz o meu amigo mestre Jogo de Dentro: “Toma cuidado menino traquino calça de homem não dá em menino.”  

Em face de tudo isso, não importa se alguns queiram que nos comportemos como não somos capazes, pois além de estarmos violentando a nossa própria individualidade, entraremos em contradição.

Por mais que nos esforcemos para ser o que não somos, nunca conseguiremos dar a aparência real daquilo que não podemos ser.

Conta-se que Incitato, “o cavalo de Calígula, podia comer numa vasilha coberta de pedras preciosas”, mas eu pergunto: o que ele continuou sendo? Nunca passou de um cavalo...

 

A VERDADE

 

“Ninguém joga do meu jeito cada qual é cada qual.” Isso é uma verdade.

Quando mestre Pastinha proferiu esta afirmativa, não quis dizer que outro capoeirista não seria capaz de fazer as coisas que ele fazia, mas sim, que ele tinha uma maneira peculiar de apresentar a capoeira, que em particular, era a sua realidade, era uma maneira diferente, sua característica; portanto, sua verdade.

Dessa forma, cada um de nós carrega uma verdade em particular, no que diz respeito não somente à capoeira, mas também a conceitos de vida.

Suponhamos que ao ver um capoeirista da Regional dando aulas, um angoleiro anuncie algumas contradições, que de fato às vezes acontece, pois muitos angoleiros conheceram o próprio mestre Bimba. Mas o que quero dizer  que dentro das características desses dois estilos, cada um desenvolveu ou lhe foi incutido culturalmente, um estilo como sendo a verdade. Assim, ele dará um parecer baseando-se no que consta na sua intimidade como “conceito do que seja a capoeira.”

Cada um, pois, ensina a capoeira de uma maneira diferente. Contudo, se o aprendiz marchar em busca da verdadeira essência da capoeira através de pessoas responsáveis e comprometidas para o ideal, dia chegará que ele aprenderá. É como se existisse algo no topo de uma montanha e três pessoas tivesse que alcançá-lo por lugares diferentes. Um irá pela água, outro pela floresta e o último pelas regiões pedregosas. Que acontecerá? Cada um conhecerá caminhos diferentes.